Projeto acadêmico desenvolvido por estudante de Agropecuária usa luz LED full spectrum para “esticar o dia” e elevar a produção de hortaliças; testes comprovaram eficácia com alface americana
Método se provou eficaz ao final de 45 dias, quando foram retirados todos os pés de alface de ambos os canteiros. A produção foi pesada e o desenvolvimento das plantas, comparado | Crédito: Reprodução
O cultivo de plantas alimentícias em ambientes fechados é uma tendência mundial, impulsionada pela busca por uma agricultura mais sustentável e economicamente viável. Essa é a proposta de uma pesquisa acadêmica desenvolvida na Escola Técnica Estadual (Etec) Paulo Guerreiro Franco, em Vera Cruz, onde foi criado um sistema de baixo custo e fácil instalação capaz de aumentar em 35% a produtividade da alface.
A iniciativa partiu da estudante Maria Eduarda Sandes Dantas, do curso técnico de Agropecuária, que decidiu aplicar os conhecimentos adquiridos ao longo da formação para aprofundar estudos sobre técnicas de cultivo em ambientes internos ou indoor.
Avaliação da Produção de Alface com o Uso da Suplementação Luminosa é o título do trabalho acadêmico de Maria Eduarda. O estudo resultou no desenvolvimento de um protótipo composto por luminárias equipadas com lâmpadas LED do tipo full spectrum (espectro completo), na cor roxa — combinação das faixas de luz vermelha e azul, essenciais para o crescimento vegetativo e o alongamento dos talos.
Segundo a pesquisadora, a ideia surgiu durante uma das aulas de planejamento do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em reuniões com seus orientadores pedagógicos, os professores Márcio Oliveira Pelota e Noelia Soares Martins.
O projeto ganhou forma após a estudante ouvir relatos de pequenos produtores rurais sobre as dificuldades para ampliar a produtividade das hortaliças em razão das limitações da iluminação natural.
“Comecei a pesquisar formas de estender artificialmente as horas de luz para favorecer o desenvolvimento das plantas. Foi então que os LEDs surgiram como uma alternativa eficiente, de baixo custo e com eficácia comprovada por estudos científicos anteriores”, explicou a técnica em Agropecuária.
Iluminação induzida
O experimento científico teve início com a preparação de dois canteiros paralelos, distantes cerca de 1,5 metro entre si, que receberam mudas idênticas de alface do tipo americana. O plantio externo foi realizado no mesmo dia.
As lâmpadas LED full spectrum foram instaladas sobre um dos canteiros da horta da escola. Para proteção contra a umidade, os soquetes receberam cúpulas confeccionadas com recortes de garrafas PET.
“O sistema é controlado por um timer, programado para acionar a iluminação sempre às 18h30 e desligá-la às 23h, fornecendo quatro horas extras de luz além das 12 horas naturais do dia, totalizando 16 horas diárias de fotoperíodo”, detalhou a pesquisadora.
A metodologia se provou eficaz ao final de 45 dias, quando foram retirados todos os pés de alface de ambos os canteiros. A produção foi pesada e o desenvolvimento das plantas, comparado. O peso total da colheita foi de 7,932 kg no canteiro com luz artificial, contra 5,864 kg na área sem suplementação.
O sistema pode ser aplicado em diferentes espécies de vegetais e adaptado a diversos modelos de produção, como cultivo orgânico, hidroponia e cultivo protegido, com o objetivo de maximizar a produtividade e otimizar o uso dos recursos.
“Embora o estudo tenha sido focado na alface americana, o sistema de suplementação luminosa pode ser adaptado para diversas outras culturas, especialmente hortaliças folhosas, como rúcula, couve e espinafre, além de ervas aromáticas, como manjericão, coentro e salsinha, e até plantas frutíferas de ciclo curto, como o morango”, acrescentou Maria Eduarda.
O projeto foi apresentado na 16ª Feira Tecnológica do Centro Paula Souza (Feteps), principal evento de inovação e empreendedorismo estudantil das Escolas Técnicas (Etecs) e das Faculdades de Tecnologia (Fatecs) do Estado de São Paulo.
A pesquisa está alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 2, da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata da erradicação da fome e da promoção da agricultura sustentável.
Agricultura familiar
Grande parte do cultivo de hortaliças, legumes e ervas ocorre em pequenas propriedades rurais e em áreas urbanas, como hortas comunitárias, domésticas e jardins verticais. Trata-se de uma atividade agrícola de fácil adaptação a diferentes condições climáticas, tipos de solo e níveis de investimento.
De acordo com o levantamento mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção nacional desses alimentos ultrapassou 5 milhões de toneladas em 2022.
O cultivo de hortaliças demanda menos espaço e recursos quando comparado a culturas de grãos ou à criação de animais, sendo reconhecido pelo baixo impacto ambiental. A prática envolve ações sustentáveis, como o uso de adubos orgânicos, a rotação de culturas e a conservação do solo.